segunda-feira, 12 de novembro de 2007

TIM FESTIVAL CAPÍTULO III


CAPÍTULO III

HOTEL & ROCK´N ROLL.

Eu estava na mureta.
Eu olhava para aquele cenário todo e não acreditava. Um mega palco. Tudo inédito pra minha limitada vida. Toda direção de arte. Todo aquele trabalho. Toda aquela mega-estrutura iria reunir gente como eu. Era tão grande. Parecia palco para Ivete Sangalo ou The Police. Não Arctic Monkeys e The Killers.

Aliás, em Florianópolis eles sabem o que são o Monkeys e o Killers? Eu nunca ouvi nada deles em bar algum dessa cidade. Só a mesma merda da década de 80, a porra do HIP-HOP pasteurizado americano, as putas da gravadora Trama de música-pra-rico: CÉU, MARIA RITA, DA MATA, etc e o REAGE pra essa maconheirada infinita.
Fui na frente da ARENA. Uma fila de teenagers com camiseta dos Monkeys.
Perguntei para um deles onde ficava o Hotel Íbis Expo do qual eu tinha uma reserva. Ele disse: “Atravessa a rua, pega a marginal novamente, atravessa a ponte Casa Verde e dá de cara com hotel! É perto!”

Essa foi à última vez que acreditei num paulista em vida.

Andei.
Ah! Como andei.
Passei por baixo de viaduto pixado a pé. O sol. Ah o sol. Implacável. Do meio dia.

Excomunguei o teenager a dar com pau!
Por onde passei mendigos de acotuvelavam de baixo do viaduto. Era o caminho a pé a se fazer para subir uma escadaria lateral. Que levava a faixa de pedestres da Ponte Casa Verde. Que liga as duas marginais da valeta concretada denominada Tietê River.

Cheguei no hotel. Gente com bagagens. Na minha frente uma família que afirmou ao guichê ser do Chile. Uma das filhas do casal era uma Pocahontas estonteante. Chegou a minha vez. Me pediram o documento de identidade. Eu sou louco mesmo né? Vir pra São Paulo sem a identidade. B.O de novo!
Aí pensei: “Já pensou se me barram no show? Duzentão jogado no Tietê!”

Entrei. PUTZ! O Íbis é bem melhor do que o Valerim 4 estrelas aqui.
TV Flat. Cama gigantesca. E a visão do quinto andar em São Paulo é cinematográfica. Nessas horas eu penso no seu Jacinto. Meu amado pai. Que esbanjaceira violenta. Ele não admitiria isso. Nego passando fome e o cara gastando grana num show de uns brancos anglo-saxões.
Quer saber? Só se vive uma vez. Se não fizer isso de que vale? Casar? Casa amarela com janela branca? Um Fiat na garagem? Uma trepada por semana? Faustão e a dança no gelo? Filho. Cumprir a porra da lista social? Passa os letterings, a logo da associação dos diretores de fotografia e fim? É isso? É só isso?

É só isso?

Não comigo.

Fui almoçar fora do hotel.
O almoço não constava na diária.

Uma budega que servia “porção de picanha!” What a hell is this???

Arrisquei. Um calor monumental. Barra funda. São Paulo. Uns manos de cafanhaque (Aliás, lá em sampa todo morlock usa cafanhaque! Os americanos estão certos de caricaturar os latinos) me olhavam curiosos. Negro, Sozinho. Óculos espelhado. Eu.
Uns caças-bombardeiros da FAB cruzavam o céu em exibição. Migs. Arranha céu. Paralamas do Sucesso na rádio. Wall-mart a frente. Killers a noite. Kombi da Gaviões da Fiel passando. Sol. São Paulo. Eu estava tão feliz. Um sorriso estampou minha black-face.

Picanha sensacional. No final fui perguntar para o garçon se tinha caixa-eletrônico perto. Caixa econômica. Lógico. O banco dos negros. Tem tanto negro em São Paulo que me sinto em casa. Em Floripa parece que não tem nenhum. Em Tubarão tem mais. Em Floripa eles se resumem ao Mercadão aos sábados, aos morros e no Carnaval. Tu não vê negros nos shoppings, no CIC, na Lagoa (Só de flanelinha), nas boates. Nego não lê. Não vai ao cinema. Não faz porra nenhuma. Não inferniza os brancos como eu. Tem que meter terror.

Voltamos. Putz! Acreditei em paulista de novo.
Caixa eletrônico? Barbaridade. Andei. Creeedo! Como andei.

Vamos esclarecer. Eu não tenho medo de andar em São Paulo sozinho? Ser assaltado? Gente.
Pode acontecer. Mas de todas as vezes que fui lá vi essa lenda cair por terra.
Por que? São Paulo é tão grande, mas tão grande que assusta. E ela tem divisões. Amigo meu de lá. Tem 30 anos. Nunca foi assaltado. Mora na zona sul de pinheiros. Ok. É uma zona amena. Não é rica. Mas São Paulo se divide. Isso eu percebi que é claro. Zona Leste é foda. Essa é do crime. Mas se bem que esses meus amigos tem um visual meio rock´n rool. Isso não atrai os manos. Eles querem é Luciano Huck. Leitores da Veja. Aqueles que aparecem na capa da revista com cara de trouxas com o título; “ A classe média leva o país na costas.”. Aqueles cuzãos podem ser assaltados. Tô pouco me lixando. Eles pagam 430 reais por mês para um motorista e empregada. Que se fodam. Os manos não assaltam tatuados com a camiseta do Iron Maden. Li uma frase essa semana do roteirista de cinema Bráulio Mantovani que me colocou de volta nos trilhos: “Neguinho quer acabar com a violência? Qual salário você paga para a sua babá? Motorista? Empregada? Faxineira? É justo pelo que você ganha?” Viu? É lógico que é uma merreca. Ninguém quer abrir mão.

Achei um caixa eletrônico. Não abria a porta. Falei com o funcionário do prédio comercial onde o banco funcionava. Ele falou pra eu usar o caixa que ficava na garagem do prédio.
Gente. Lá fui eu. Num estacionamento de um prédio desconhecido.
Olha só. O porteiro me deixou descer pra garagem pra tirar grana do caixa eletrônico.

GOD SAVE THE QUEEN.

Achei um banco 24 horas. Tirei uma grana boa pra noitada.
O porteiro riu.
SENSACIONAL.

São Paulo é demais.
Voltei para o hotel. Campeonato Inglês na TV. Dormi.
Acordei as 18 horas para o KILLERS.
As 18:30 começaria o festival.

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