CAPÍTULO IIDEVANEIOS NO TIETÊ
Naquela Big lanchonete de Beira de estrada eu fui direto para o banheiro. Aqueles mijódromos gigantescos onde você procura o canto e olha para cima para não ter que olhar para algum fuckin dick sem querer. Gente feia que vaiajava naquele ônibus da Catarinense. Gente decadente. Loosers assalariados voltando pra casa.
Segue uma fila. Numa espécie de buffet de iguarias de beira do asfalto. Iguarias geladas e gordurentas. Salgadinhos feitos por uma gorda suada na panela pela manhã e postados ali já passando do seu vencimento. 110 reais por toda essa grande merda.
Em 100 metros de buffet, o que pude pegar de melhor naquelas 0:24 passadas, foi um sanduba natural. A fatia de peru tinha um gosto sinistro. Larguei na metade. Um Tang laranja com sacarose acima da média era o que restava.
Na tv da big lanchonete um Supercine. Michael Douglas a tela. Clientes olhando aquela merda de filme feito às pressas na América, para preencher o calendário Holywoodiano dos estúdios no verão. Voltei ao ônibus.
Que nem um pacote acho que acordei em Taboão da Serra. O volvo parou. Deixou uns meliantes. 5:30. Estava em São Paulo.
O prazer que tenho em estar em São Paulo é imenso. Apaixonei-me por essa cidade anos atrás e ninguém mais a tira da minha fuckin mind. Em São Paulo pela primeira vez na minha vida eu descobri que não estava sozinho. Os meus pensamentos, minhas vontades e gostos culturais estavam não só impregnados naquela cidade, mas em pessoas de lá. Em São Paulo existem outros Cristianos. Eu achava que estava sozinho. Mas lá não.
Um céu escarlate começa a surgir no céu. “Believe Me Natalie” do Killers no meu mp3 player. Eu estava voltando pra casa. Ali é onde a cegonha errou seu caminho e me jogou na porra da Santa Catarina repleta de cuzões sub-europeus classistas. Sub italianos do terceiro mundo. São Paulo não tem lugar pra poucos. É lugar de todos. E só os fortes sobrevivem. É cosmopolita.
Rodoviária do Tietê. Poderia escrever mil crônicas desse lugar. Suas peculiaridades, seus significados pra muita gente. O fim. O início. Para muitas vidas uma saga. Para muitas sagas um início. Meus olhos tanto brilham aqui como em Congonhas. Cada qual a sua proporção. Uma café expresso.
Domingo 28. Ia ser naquele dia o Tim Festival 2007.
Vou na banca e compro a Folha de Domingo e a Veja com orgulho. Pelo menos dessa vez vou ler o que realmente me interessa e vou estar ali pra conferir.
Voltamos a saga. Vou resumir o meu plano das coisas até aquele momento.
Eu tenho uns amigos em sampa. Foi onde passei minhas férias últimas. Os caras vivem de música. Moram num estúdio numa travessa na Teodoro Sampaio. Rua universal da música em Sampa. Sabia que eles iam trabalhar na produção do TIM FESTIVAL. Liguei pra eles. Mas nada. Mas como eles moram no sul de Pinheiros, eu não podia contar com a estadia deles. O TIM era no ARENA SKOL do AHEMBI. Muito longe do sul. No fim do show eu ia pegar metrô na madruga? Gosto de São Paulo. Mas aí seria abusar na sorte. Mesmo sendo negro e tendo uma pele à prova de assalto (Sério. Se vocês soubessem como funciona). Resolvi decidir meu destino ali. Iria no TIM FESTIVAL SOZINHO.
Perguntei para um funcionário do Metrô se o AHEMBI era longe dali.
Como todo paulista que concheci o cara foi super gente boa e falou: “ Cara, é a 800 metros daqui, você saiu nessa saída, atravessa a avenida e vira a direita na marginal do rio Tietê. Vai reto. Tu vai achar. É perto!”
Primeira regra quando conversar com um paulista. O “perto” deles não é o mesmo nosso. Sob um sol escaldante eu andei. Mochila nas costas. 11 da manhã. O rio Tietê?
Como eles podem chamar aquela valeta de concreto de rio? É uma vala. E de concreto. Após uma tenebrosa caminhada num sol inclemente achei o tal AHEMBI. Um complexo gigantesco. Mas...Não vi uma bandeira ou um banner do tal Tim Festival. Existia uma mega feira de automóveis. Perguntei.
Um vendedor: “Ah! O Tim? É mais lá na frente, no fim do Sambódromo!”
GOD SAVE THE QUEEN.
Andei mais um montão. Um sol implacável. O cenário? Um rio fedorento que mais parece uma vala. E uma calçada do lado de uma via expressa onde carros e caminhões passavam como mísseis. A minha direita um alambrado que cercava o quilométrico e interminável complexo do AHEMBI.
Vi uma travessa.
Uns engenheiros colocavam cones na travessa. Perguntei. Onde é o TIM FESTIVAL?
Um deles: “É logo ali!”
Dá pra acreditar?
Olhei. Vi um balão gigantesco com a logo. Caminhei. Subi numa mureta e vi o local do festival. Ali entendi o conceito “Viver sem fronteiras”. Aquele conceito era eu.
Fim do capítulo II
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